Posso acreditar em Jesus e na Bíblia, mas sem acreditar em mitos ultrapassados como Adão e Eva, e Noé e o Dilúvio?Hoje,
existem três interpretações sobre a história de Gênesis. A primeira
afirma que o autor de Gênesis pretendia que os leitores compreendessem
as narrativas como literais e historicamente verdadeiras. Eles afirmam,
no entanto, que a maior parte de Gênesis não aconteceu de fato. A
segunda interpretação nega que o autor de Gênesis pretendia que as
narrativas fossem compreendidas como literais ou históricas. Em vez
disso, elas foram escritas para serem interpretadas de maneira
simbólica, para transmitir apenas verdades morais e espirituais. A
terceira interpretação afirma que o autor de Gênesis pretendia descrever
eventos literais e históricos relacionados à Criação, ao Dilúvio, e
assim por diante. Além disso, defendem a exatidão e veracidade da
história. Portanto, pensam que a Criação ocorreu em seis dias de 24
horas e que houve um dilúvio global.
O Antigo Testamento e a história de Gênesis Por
várias razões, muitos estudiosos creem que o autor de Gênesis tinha a
intenção de que seus relatos da Criação e do Dilúvio fossem entendidos
de forma literal e histórica.
A sequência de tempo e espaço apresentada em Gênesis.
Existe claramente uma unidade na grande narrativa de Gênesis que
percorre todo o caminho desde o relato da Criação até o Êxodo. Essa
história descreve os eventos passados dentro de uma estrutura narrativa.
De fato, Gênesis 1-11 claramente serve como introdução para o restante
de Gênesis e dos cinco primeiros livros da Bíblia.
A expressão “são estas as gerações de”. Vários estudiosos observam também a presença da palavra hebraica
toledoth (“estas
são as gerações de”) em Gênesis 1-11. Essa palavra, que tem o sentido
de “registro histórico”, aparece antes de cada seção do livro de
Gênesis, para iniciar o relato sobre a criação do mundo (Gn 2:4), os
descendentes de Adão (5:1), Noé (6:9), os três filhos de Noé (10:1), Sem
(11:10), Ismael (25:12), Isaque (25:19), Esaú (36:1) e Jacó (37:2).
Estilo literário: registro histórico.
Não existe nenhuma mudança de estilo literário entre Gênesis e o
restante do Pentateuco, nem entre o Pentateuco e os assim chamados
“livros históricos” (Reis, Crônicas, etc.). “De fato, se estamos falando
sobre a intenção original do autor bíblico, o estilo de Gênesis não dá
margem para argumentar contra a conclusão óbvia de que o autor pretendia
que o livro fosse considerado uma obra histórica que narra o que
aconteceu no passado distante” (Raymond D. Dillard e Tremper Logman,
An Introduction to the Old Testament [Grand Rapids, MI: Zondervan, 1994], p. 49).
Antigos relatos históricos fora da Bíblia.
Os críticos da Bíblia frequentemente se esquecem de que as histórias
antigas muitas vezes incluem histórias sobre deuses. Entretanto,
recentemente tem sido observado que elementos nas histórias
mesopotâmicas antigas, tais como a Lista de Reis Sumérios e a Epopeia de
Gilgamesh mencionam os nomes de pessoas e locais confirmados pela
arqueologia.
É interessante que algumas dessas pessoas que
realmente existiram seriam consideradas lendárias segundo os padrões
atuais – realizaram façanhas inacreditáveis e tiveram duração de vida
incrivelmente longa. Por exemplo: a Lista de Reis Sumérios afirma que
Enmebaragesi, rei de Kish, governou durante 900 anos! Mas os nomes de
Gilgamesh e e Enmebaragesi, um de seus contemporâneos, foram encontrados
em uma inscrição da época em que as lendas posteriores afirmam que eles
viveram.
Vários elementos na história da torre de Babel foram
registrados em documentos fora da Bíblia, sugerindo que a história não
foi simplesmente inventada pelo escritor bíblico. Um texto sumério da
terceira dinastia de Ur (Mesopotâmia) conta que, em uma época, os
sumérios falavam apenas uma língua, mas o deus Enki confundiu a fala
deles. Os sumérios possuíam torres especiais (os zigurates), que se
acreditava serem uma ligação entre o Céu e a Terra.
O Novo Testamento e o livro de GênesisOs
autores do Novo Testamento escreveram no contexto de uma sociedade que
não aceitava a mensagem do evangelho. Pedro escreveu: “De fato, não
seguimos fábulas engenhosamente inventadas, quando lhes falamos a
respeito do poder e da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo; ao contrário,
nós fomos testemunhas oculares da Sua majestade” (2Pe 1:16).
No
início de sua primeira epístola aos coríntios, Paulo admite que “a
mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo [aqueles que se
recusam a crer], mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de
Deus [...] é escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Co
1:18, 23).
É tentador pensar que as pessoas daquela época eram
mais ingênuas, mas a verdade é que muitas, se não a maioria, eram tão
desconfiadas sobre a ressurreição de um morto quanto as pessoas atuais. O
conflito entre os saduceus e os fariseus (At 23:6-10) mostra a
incerteza que havia entre os judeus cultos a respeito da possibilidade
da ressurreição. O discurso de Paulo para a elite intelectual de Atenas
no Areópago (At 17:32, 33) foi bem recebido até o momento em que ele
mencionou a ressurreição, a respeito de que ele foi ridicularizado por
alguns e educadamente despedido por outros.
Os escritores do Novo
Testamento entendiam Gênesis capítulos 1 a 11 como um registro
histórico. Em Mateus 19:4 e 5, Jesus cita Gênesis 1:27 e 2:24 e introduz
esses textos perguntando: “Vocês não leram [...]?” Isso mostra que Ele
considerou essas passagens como confiáveis, históricas e dignas de
autoridade. Gênesis 1:27 fala sobre a criação de Adão e Eva como um
evento histórico. Gênesis 2:24 declara que os dois “se tornarão uma só
carne”; e Jesus utiliza esse texto para justificar o ensino de que o
casamento é permanente e sagrado. Em Lucas 17:26-29, Jesus advertiu de
que os últimos dias seriam “como foi nos dias de Noé”. Obviamente, o
aviso sobre o juízo final é seriamente invalidado se o juízo no tempo de
Noé não for considerado como real e histórico.
O autor da
epístola aos Hebreus menciona sem interrupções eventos dos primeiros
capítulos de Gênesis até eventos muito posteriores e geralmente
considerados eventos históricos. Esse fato mostra que não havia qualquer
distinção entre a veracidade histórica de tais eventos na mente dos
primeiros cristãos (ver Hb 11). A referência de Pedro ao tempo do
Dilúvio torna evidente que ele foi um acontecimento histórico (2Pe
3:3-7).
Essas e outras passagens do Novo Testamento mostram que a
veracidade histórica de Gênesis capítulos 1 a 11 era aceita pela igreja
antiga. Portanto, os cristãos que creem no Novo Testamento devem crer
na história de Gênesis.
(Randall W. Younker, Th.D., Ph.D., é
professor de Antigo Testamento e Arqueologia Bíblica e diretor do
Instituto de Arqueologia da Andrews University, Berrien Springs,
Michigan, Estados Unidos. Publicado originalmente como “A Literal
Reading of Genesis”, Perspective Digest, ano 15, nº 3 (2010), p. 33-37.
Traduzido e adaptado, com permissão, por Matheus Cardoso)Todas as citações bíblicas foram extraídas da Nova Versão Internacional